(pintura de José Luís Tinoco)
José Luís Tinoco (1932-2026), músico, pintor, arquiteto, autodidata genial...Autor de No teu poema, Madrugada ou Um Homem na cidade, foi um criador multifacetado que deixa marca indelével na cultura portuguesa.
Era arquiteto, porque era essa a sua formação. Era músico, porque a música foi uma constante da sua vida desde o berço, e foi também pintor, vocação a que se dedicou com afinco depois de se zangar com a arquitetura. José Luís Tinoco, nomeado para o Prémio Valmor aos 22 anos, autor de No teu poema ou Um homem na cidade, esta com letra de Ary dos Santos, para Carlos do Carmo, e de Madrugada, vencedora do primeiro festival da Canção após o 25 de Abril, na voz de Duarte Mendes.
Aqui fica o poema escrito por José Luís Tinoco:
MADRUGADA
Dos que morreram sem saber porquê
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida do medo
Da raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio.Das cicatrizes do meu chão antigo
E da memória do meu sangue em fogo
Da escuridão a abrir em cor
De braço dado e a arma flor
Fazem-se as margens do meu povoCanta-se a gente que a si mesma se descobre
E acordem luzes arraias
Canta-se a terra que a si mesma se devolve
Que o canto assim nunca é demaisEm cada veia o sangue espera a vez
Em cada fala se persegue o dia
E assim se aprendem as marés
Assim se cresce e ganha pé
Rompe a canção que não haviaAcordem luzes nos umbrais que a tarde cega
Acordem vozes, arraiais
Cantam despertos na manhã que a noite entrega
Que o canto assim nunca é demaisCantem marés por essas praias de sargaços
Acordem vozes, arraiais
Corram descalços rente ao cais, abram abraços
Que o canto assim nunca é demais
O canto assim nunca é demais
vencedora do festival da canção de 1975

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