quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Van Gogh - French Street Artist

ESTA ESPÉCIE DE LOUCURA
 
 Esta espécie de loucura
 Que é pouco chamar talento
 E que brilha em mim, na escura
 Confusão do pensamento,
 
 Não me traz felicidade;
 Porque, enfim, sempre haverá
 Sol ou sombra na cidade.
 Mas em mim não sei o que há.
 
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro”

 
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA VENCE PRÉMIO FERNANDO NAMORA
 
 
 
 

O romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa, Teoria Geral do Esquecimento, é o vencedor do Prémio Literário Fernando Namora. Esta é a 16.ª edição do galardão de 15 mil euros instituído pelo grupo Estoril-Sol.
No comunicado enviado à imprensa a escolha do júri é justificada pela “escrita ágil de um autor que sabe realizar uma especial economia de efeitos, encontrando uma linguagem em que o português é falado em interceção com outros modos”. No mesmo documento o júri salienta que “esta obra engrandece o apurado estilo literário da ficção do autor”.
A narrativa do livro de José Eduardo Agualusa centra-se em Luanda, começando nas vésperas da proclamação da independência (11 de novembro de 1975), quando uma portuguesa decide erguer um muro para se separar do edifício onde mora, acabando por sobreviver isolada durante cerca de 30 anos.
José Eduardo Agualusa nasceu em Huambo, em 1960, é membro da União de Escritores Angolanos e estreou-se literariamente com A Conjura (1989), que lhe valeu o Prémio Sonangol. Entre novelas, contos e romances, é autor de cerca de 25 títulos.
Teoria Geral do Esquecimento, editado o ano passado pela D. Quixote, é o romance, que sucedeu a Milagrário Pessoal. Já este ano Agualusa editou, na Quetzal, A Vida No Céu.


terça-feira, 15 de outubro de 2013


VAMOS ABRIR A PORTA E ESPREITAR OS SEGREDOS DO 6ºD

 
 
Depois do estudo de vários textos não literários, a PUBLICIDADE foi a que mais agradou e entusiasmou os alunos. Desafio lançado, trabalho realizado!
Criativos, estes meninos do 6ºD! Mérito da professora Isabel Sousa também!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  


sábado, 12 de outubro de 2013

 
NÃO SEI QUEM SOU, QUE ALMA TENHO
 
  Não sei quem sou, que alma tenho.
 Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
 Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
 Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
 Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.
 
 
Fernando Pessoa
 
 
Páginas Íntimas e de Autointerpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.)


 
"Coragem"
É preciso arranjar outros
motivos
outras flores e astros
 
Outras abertas
Entre a chuva cansada de um Outono
que não sabe já
qual é a terra certa
 
É preciso pensar outras imagens
outras fissuras, sítios
e cidades
 
Pôr fim ao lamento deste vento
tentar tirar ao anjo
a túnica e o sabre
 
É preciso inventar outras paisagens
outros montes e águas
outras margens
 
Abrir e expor o coração
e finalmente deixar
correr as lágrimas
 
Maria Teresa Horta,
In ‘"Destino"



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

 
 
Jorge Luís Borges soube que tinha morrido quando, tendo fechado os olhos para melhor escutar o longínquo rumor da noite crescendo sobre Genebra, começou a ver. Distinguiu primeiro uma luz vermelha, muito intensa, e compreendeu que era o fulgor do sol filtrado pelas suas pálpebras. Abriu os olhos, inclinou o rosto, e viu uma fileira de densas sombras verdes. Estava estendido de costas numa plantação de bananeiras. Aquilo deixou-o de mau humor. Bananeiras?! Ele sempre imaginara o paraíso como uma enorme biblioteca: uma sucessão interminável de corredores, escadas e outros corredores, ainda mais escadas e novos corredores, e todos eles com livros até ao teto".
Substância do Amor é um livro fácil de devorar. Para quem não tem muito tempo ou paciência para uma longa obra, este é o livro ideal. Vai-se devorando aos poucos. As histórias aparecem como forma de crónicas suaves, de fácil consumo. O género permite mesmo certas liberdades assemelhando-se a apontamentos do escritor, um bloco de notas que se expõe ao entendimento dos autores. Estas notas que se vão tomando ao longo dos dias, parecem ter em vista uma continuação, uma futura obra, talvez.
Este livro está cheio de humor negro, de ironia mordaz, de observações perspicazes sobre o estado do mundo que nos rodeia (ou seja, sobre nós próprios).


terça-feira, 8 de outubro de 2013

 
 
Ser adolescente não é fácil. As expectativas que se criam são difíceis de superar e todos os problemas assumem proporções gigantescas. Mas, acidentalmente, Alice encontrou a melhor forma de se evadir de tudo isto: as drogas! E se os momentos de prazer que consegue ao drogar-se proporcionam alegria e bem-estar, os maus momentos deixam bem claro que o preço a pagar por esses instantes é demasiado elevado. O diário que vai escrevendo revela um percurso de otimismo e desespero, transformando este livro num instrumento marcante para os leitores.
 

 
 
As protagonistas desta obra são duas irmãs que por força das circunstâncias são obrigadas a levar vidas muito diferentes em diversos aspetos, mas muito semelhantes noutros. Por vezes sentem-se soçobrar sob o peso dos problemas, das dúvidas e das ansiedades que as assaltam, mas acabam por revelar o melhor de si próprias quando se mantêm fiéis aos valores em que acreditam e descobrem dentro de si a coragem e o amor necessários para manterem acesa a esperança num futuro risonho. 


"O cinema é um modo divino de contar a vida."
 Fellini , Federico
 

Blue Jasmine é o regresso de Woody Allen à boa forma. A sua caricatura social ganha outra camada com Blue Jasmine, onde apresenta uma personagem desequilibrada e moralmente comprometida interpretada de forma brilhante por Cate Blanchett. Enquadrando em pouco minutos e com poucas falas, nos seus habituais planos cénicos, a premissa da sua história, Woody Allen introduz Blue Jasmine como uma sarcástica admiração da riqueza descontrolada e da superioridade falsa. Jasmine, ou Jeanette, não é a habitual musa em quem muitas vezes Woody Allen deposita os seus desejos; é, se de todo alguma coisa para o realizador americano, uma antítese dessa representação costumeira: é uma mulher que não inspira, profundamente embrulhada na deceção, na inconformação e na depressão. Não há dúvidas de que o caminho de Jasmine, descendo à terra, não será feliz; não se estaria a discorrer sobre Woody Allen se se esperasse outro desfecho. O importante aqui é a jornada, compreender nos pequenos detalhes o âmbito da caricatura social.

In Fora de Cena

Vale a pena ver o último filme de Woody Allen.



quarta-feira, 2 de outubro de 2013


As bibliotecas são como aeroportos. São lugares de viagem. Entramos numa biblioteca como quem está a ponto de partir. E nada é pequeno quando tem uma biblioteca. O mundo inteiro pode ser convocado à força dos seus livros.
Todas as coisas do mundo podem ser chamadas a comparecer à força das palavras, para existirem diante de nós como matéria da imaginação. As bibliotecas são do tamanho do infinito e sabem toda a maravilha.
Os livros são família direta dos aviões, dos tapetes-voadores ou dos pássaros. Os livros são da família das nuvens e, como elas, sabem tornar-se invisíveis enquanto pairam, como se entrassem para dentro do próprio ar, a ver o que existe dentro do ar que não se vê.
O leitor entra com o livro para dentro do ar que não se vê.
Com um pequeno sopro, o leitor muda para o outro lado do mundo ou para outro mundo, do avesso da realidade até ao avesso do tempo. Fora de tudo, fora da biblioteca. As bibliotecas não se importam que os leitores se sintam fora das bibliotecas.
Os livros são toupeiras, são minhocas, eles são troncos caídos, maduros de uma longevidade inteira, os livros escutam e falam ininterruptamente. São estações do ano, dos anos todos, desde o princípio do mundo e já do fim do mundo. Os livros esticam e tapam furos na cabeça. Eles sabem chover e fazer escuro, casam filhos e coram, choram, imaginam que mais tarde voltam ao início, a serem como crianças. Os livros têm crianças ao dependuro e giram como carrosséis para as ouvir rir. Os livros têm olhos para todos os lados e bisbilhotam o cima e baixo, o esquerda e direita de cada coisa ou coisa nenhuma. Nem pestanejam de tanta curiosidade. Querem ver e contar. Os livros é que contam.
(…)
As bibliotecas - Valter Hugo Mãe (Jornal de Letras, 15 a 28 de maio)