Mostrar mensagens com a etiqueta José Jorge Letria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Jorge Letria. Mostrar todas as mensagens

domingo, 1 de maio de 2016


Quando Eu For Pequeno

Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
                                                       [pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.


José Jorge Letria, in "O Livro Branco da Melancolia" 






Pequeno Poema

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...


Sebastião da Gama, in  “Antologia Poética”

quarta-feira, 23 de abril de 2014







OS LIVROS

Apetece chamar-lhes irmãos,
 tê-los ao colo,
 afagá-los com as mãos,
 abri-los de par em par,
 ver o Pinóquio a rir
 e o D. Quixote a sonhar,
 e a Alice do outro lado
 do espelho a inventar
 um mundo de assombros
 que dá gosto visitar.
 Apetece chamar-lhes irmãos
 e deixar brilhar os olhos
 nas páginas das suas mãos.



Pela casa fora, José Jorge Letria