quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


Fazer ao calhas
não é uma solução
mas sim o início
de uma confusão.

A vida tem que se aproveitar
porque para sempre
ela não vai durar.

Toda a gente
começa uma confusão
ou é por nada
ou por um pedaço de pão.

Toda a gente quer
dinheiro e imortalidade
mas eu só quero
paz e humildade.

A vida ensinou-me
a viver, a sorrir, a sonhar
mas especialmente
a amar.

Podes-me dar tudo e
eu vou negar
porque é com os
amigos e familiares que quero estar.



Mariana Mêda nº20, 6ºD


TRABALHOS REALIZADOS PELOS ALUNOS DO 6.º B





A AMIZADE

Na minha opinião, a amizade é, no fundo, uma relação entre duas ou mais pessoas. Esta relação consiste em ser generoso, presente, leal e honesto. Vou dar-vos alguns exemplos.
Imagina que uma amiga tua te empresta a sua camisola preferida. Tu sujas essa camisola e, na máquina de lavar, esta encolhe. Neste caso, tu podias comprar uma igual e fingir que nada aconteceu, podias entregar-lhe a camisola como estava e dizer que já estava assim, e muito mais. As hipóteses eram infinitas mas, apenas uma, é digna de alguém leal e honesto: davas a camisola, confessando o teu erro e pedindo desculpa.
Outro exemplo: tu e o teu amigo estão a jogar à bola e a bola, com o xuto do teu amigo, vai parar à casa do vizinho deste. Esta acerta no carro, que estava na garagem e deixou marca. O teu amigo vai tentar recuperar a bola e tu, por pior que fosse o momento, és um amigo presente e vais apoiá-lo. Bem que podias fugir ou dizer ao vizinho que a culpa não era tua nem do teu amigo, ou que a bola não lhes pertencia.
É hora do lanche e tu e a tua amiga estão esfomeadas. Tu tinhas trazido um lanche de casa e a tua amiga não. Neste caso, as hipóteses eram duas. Se fores generoso, repartes o lanche. Se não fores, comes tu o lanche todo. Como  tu és generosa, repartes o lanche com a tua amiga.
Isto sim é a amizade: lealdade e honestidade, presença, generosidade e muito mais.

Matilde Garcia
N.º 20, 6.º B
10/01/2014






A amizade

A amizade é a confiança
De termos alguém ao nosso lado
Os amigos são a esperança
De um coração confortado.

Ter um amigo é um tesouro
O maior que um homem pode ter
Não há riqueza nem ouro que os faça perder.

A sinceridade é a base da amizade
Qualquer amigo que diga o que pensa
Temos que aceitar com toda a bondade
Não pode ficar nenhuma ofensa.






Raquel Silva
Nª24, 6.ºB




A amizade é divertida!
Serve para brincar e ajudar
Quem não quer ser amigo
Não brinque comigo!

Brincar e dialogar
É uma forma de amar
Entre amigos muito fazemos
Sobretudo conversar.

Ser fiel é muito importante
Ser confidente ainda mais.
Contudo devemos respeitar
Os nossos laços fraternais.

Devemos crescer com bondade.
Com amor no coração.
O lema da amizade!
É oferecer até mais não…

Ajudar o próximo é sempre bom.
Não pensar só em mim.
Dar ao amigo um bombom.

Ser solidário é importante
Ajudar o próximo é gratificante
Quando amor oferecemos
Amor recebemos!

 Ana Laura dos Reis José Silva
6ºB, n.º2



Era uma vez uma menina chamada Maria José, cujo sonho era ser jogadora de futebol. Por isso toda a gente lhe chamava Zé. Ela gostava muito de competir com tudo o que era rapazes, pois vestir saias e pôr lacinhos não era para ela.
Já toda a gente se começava a aperceber de que ela gostava sempre de ganhar, fosse ao  que fosse, porque , caso contrário, ficava chateada com tudo e todos.
Às vezes até é muito egoísta com as pessoas,  mesmo com as da sua família.
Ela nunca tinha ouvido falar nas palavras AMIZADE e SOLIDARIEDADE, por isso não tinha amor por ninguém.
Quando ela se aproximava do campo de futebol mandavam-na embora, pois ela não se sabia comportar em frente aos rapazes só para demonstrar que era a maior.
-Posso jogar convosco?- perguntava ela já a entrar no campo.
-Não Zé, vai-te embora, desculpa eu estar a fazer-te isto, mas tu és egoísta e queres sempre ser o centro das atenções!-exclamou o Júlio.
Nesse dia, ela ficou muito triste e, quando chegou ao pé da mãe, começou a chorar e disse-lhe:
-Mãe, ninguém quer jogar comigo futebol.
-Porquê? E porque é que estás a chorar? -perguntou a mãe, preocupada.
-Estou a chorar porque hoje mandaram-me embora do campo de futebol, e disseram que eu não sabia o significado das palavras AMIZADE e SOLIDARIEDADE…
-Mas não sabes o que é a AMIZADE?
-Muito sinceramente, não!- sussurrou ela muito envergonhada.
-Eu explico-te: A AMIZADE é a relação afetiva entre as pessoas, e o relacionamento que estas têm de afeto umas com as outras, a AMIZADE não precisa de acontecer com pessoas iguais com os mesmos gostos e vontades, a AMIZADE é respeitar as pessoas como elas são e não tentar alterar a sua maneira de ser- respondeu a mãe com muita calma e paciência.
-Muito obrigada mãe, gosto muito de ti!
No dia seguinte, a Zé falou disto a todos os seus amigos, e pediu-lhes desculpa.
Eles aceitaram e tudo ficou bem, a Zé passou a ter necessidade de compreender os outros e ajudá-los e assim a menina percebeu o significado das palavras AMIZADE e SOLIDARIEDADE.
                                                            
 Miguel Carvalho 6ºB, n.º 21






                     Amizade
A amizade é...
Os amigos ou família estarem sempre connosco, nos nossos bons e maus momentos.
A paz entre todos; o carinho, os momentos e especialmente o amor que partilhamos.
Não fazer distinções entre as raças. Pois os nossos amigos podem ser brancos ou negros ou de outra raça qualquer.
Não sermos invejosos, nem interesseiros.
É tudo de bom que acontece entre amigos.


Maria Baioa 6º B, n.º 18


A Amizade

A amizade é algo muito importante, é um sentimento muito poderoso que ajuda a ver as coisas doutra maneira. É extremamente importante termos amigos porque estes ajudam-nos nos maus e bons momentos da nossa vida. Eu tenho duas amigas e sei que posso confiar totalmente nelas, posso contar-lhes segredos sem que elas falem com outras pessoas alheias aos mesmos. Estou sempre disposta a ajudar os meus amigos, quero que eles estejam sempre presentes na minha vida, muitos ou poucos não interessa, desde que sejam verdadeiros.



Adoro os meus amigos e os momentos que passo com eles.


Sara Pacheco Nº26, 6.ºB

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014


RETRATO DO POETA QUANDO JOVEM

 Há na memória um rio onde navegam
 Os barcos da infância, em arcadas
 De ramos inquietos que despregam
 Sobre as águas as folhas recurvadas.

 Há um bater de remos compassado
 No silêncio da lisa madrugada,
 Ondas brancas se afastam para o lado
 Com o rumor da seda amarrotada.

 Há um nascer do sol no sítio exato,
 À hora que mais conta duma vida,
 Um acordar dos olhos e do tato,
 Um ansiar de sede inextinguida.

 Há um retrato de água e de quebranto
 Que do fundo rompeu desta memória,
 E tudo quanto é rio abre no canto
 Que conta do retrato a velha história.

José Saramago





quinta-feira, 16 de janeiro de 2014


A CENSURA EXISTE EM TODO O LADO

Eu acho que a censura existiu sempre e provavelmente vai existir sempre. Porque a censura para o ser não necessita de ter claramente uma porta aberta com um letreiro, onde se diga que ali há pessoas que leem livros ou vão ver espetáculos. Não! A censura existe de todas as maneiras, porque todas as pessoas, nos diferentes níveis de intervenção em que se encontram, por boas ou más razões, selecionam, escolhem, apagam, fazem sobressair. E isso são atos de ocultação ou de evidenciação que, no fundo, em alguns casos, são atos formais de censura.
(Quanto à censura oficial dos tempos de ditadura) Aquilo que a censura demonstrou e demonstra, em qualquer caso, é que felizmente os escritores, dependendo das situações em que se encontram, são muito mais ricos de meios, de processos de fazer chegar aquilo que querem dizer aos outros, do que se imagina. Evidentemente, numa situação de censura, o escritor é obrigado a usar a escrita para comunicar isto ou aquilo ou aqueloutro, de uma maneira disfarçada, subterrânea, oculta; mas o que é importante não é que a censura o esteja a obrigar a fazer isso. O que é importante é que ele seja capaz de o fazer. E isso não vai em abono da censura como agente capaz de estimular a criatividade de um escritor, vai, sim, no sentido de reconhecer no escritor capacidades de expressão que ele usará ou não consoante a situação concreta em que se encontre. Agora, se me pergunta: a escrita sai melhor de uma maneira ou sai de outra, eu diria que provavelmente alguns dos livros que escrevi numa situação de liberdade de expressão, provavelmente num regime de censura eu não pensaria em escrevê-los.


José Saramago, in "Diálogos com José Saramago" 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

NOVIDADES EDITORIAIS


JERUSALÉM- Gonçalo M. Tavares


Theodor, um reputado médico, tem como grande objetivo de vida encontrar uma teoria que explique a história e futuro da maldade gratuita que repetidamente se encontra nos grandes massacres de povos sem defesa, cujo exemplo mais recente é o Holocausto. Que se consiga reduzir a um conjunto de fórmulas que permita deduzir o futuro da humanidade. Estas poderão traduzir um ciclo que simplesmente se repetirá sem fim, ou que aumentará ou diminuirá gradualmente ao longo dos séculos, mas, em qualquer dos três casos, o cenário resultante será apocalíptico. Na sua vida pessoal, Theodor leva ao extremo a sua tentativa de tudo explicar, ao casar com uma mulher desequilibrada mentalmente, Mylia.
Gomperz, diretor do manicómio, é um redutor de faculdades mentais. Tudo simplifica, dentro dos hábitos dos seus doentes e dentro das suas cabeças, até julgar que se comportam de forma correta e pensam de forma correta. E convence-se que o seu método resulta, iludido pelo comportamento dos seus doentes e pela reputação que granjeia na comunidade.



O Caderno Vermelho da rapariga Karateca
  Ana Pessoa



N não é uma menina, é karateca.
N tem 14 anos, quase 15, e o seu maior sonho é ser cinturão negro e beijar o Raul.
N gosta de escrever, mas prefere lutar com o Raul.
(Escrever é uma seca.)
Isto não é um diário. Não tem chave, não tem segredos.
(Sim, tem segredos.) Também tem vontade própria, páginas movediças, palavras como «diarreia» e «romântico» e personagens como a bruxa má que quer aprender a ser boa e a mosca que não sabia quem era.
Isto é o Caderno Vermelho da Rapariga Karateca. O objeto preferido de N, um animal de estimação, uma personagem, uma pessoa de verdade.
(O que é a verdade?)
O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca é a primeira obra de Ana Pessoa e venceu a última edição do prémio Branquinho da Fonseca — Expresso/Gulbenkian, na modalidade Juvenil. Com este título, o Planeta Tangerina inaugura a coleção para leitores mais crescidos Dois Passos e Um Salto.

Aconselhado pelo Plano Nacional de Leitura


O Senhor Valéry e a lógica
Gonçalo M. Tavares




O senhor Valéry é um conjunto de vinte e cinco micro-histórias protagonizadas por um senhor franzino e de pequena estatura que não gosta de ser posto em causa e é, no fundo, um solitário [...]

Lemos este livro recordando Lewis Carroll e com a permanente impressão de estarmos a ser interpelados na nossa lógica de seres, por assim dizer, normais [...]

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014




CONCURSO NACIONAL DE LEITURA DE 2014

8.ª EDIÇÃO – 1.ª FASE

Só para vos lembrar…e toca a participar!

Como já é do teu conhecimento, a 1.ª fase do “Concurso Nacional de Leitura” é  no dia 15 de janeiro, pelas 14.30, na sala EV1.
Nesta fase serão selecionados os três alunos que obtenham melhor classificação e, posteriormente, representarão a escola, a nível distrital.
Os livros que tens de ler são:
  • PARABÉNS, RITA, de Maria Teresa Maia Gonzalez
  • OS DA MINHA RUA, de Ondjaki
Estes livros existem na biblioteca. Ainda podes inscrever-te, junto da tua professora de Português ou na biblioteca, requisitá-los e lê-los!
Participa!!!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014



A ARTE DE SER FELIZ

 Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.

Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

NOVIDADES EDITORIAIS


Livro inédito de Rosa Lobato de Faria, O Balão Azul é o primeiro livro da coleção Biblioteca Infantil Rosa Lobato de Faria que a ASA dedicará à autora. Neste livro, o Martim e a Francisca encontram um balão muito especial, de cor azul, que os leva a conhecer uma casa não menos especial: a casa das fadas! Aí, ambos se divertem e se maravilham com aquele mundo tão diferente, até que, ao regressarem a casa, caem nas mãos do malvado Bruxo Coquinhas, que os aprisiona e os pretende comer ao jantar. Conseguirão os nossos heróis escapar a este terrível fim? 


O SONO

O sono é uma viagem noturna.
O corpo – horizontal – no escuro
E no silêncio do trem avança.
Impercetivelmente
Avança. Apenas
O relógio picota a passagem do trem.
Sonha a alma deitada em seu ataúde:
Lá longe
Lá fora
(Ela sabe!)
Lá no fundo do túnel
Há uma estação de chegada
- anunciam-na os galos, agora –
Com a sua tabuleta ainda toda húmida de orvalho,
Há uma estação chamada
AURORA.

 Mário Quintana in: Preparativos de Via

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

 UM FINAL FELIZ
   Tudo começa numa véspera de Natal fria, comigo enrolada numa manta, bem como a minha família. Todos estávamos bastante entusiasmados com esta época tão feliz.
      A casa estava enfeitada de cima a baixo, cheia de fitas e decoração maravilhosas, tal como a árvore que estava mais bela que nunca, enfeitada por toda a família. A estrada e os telhados das casas estavam cobertos de neve. Lá fora, na rua, as pessoas cantavam sorridentes de porta em porta, transmitindo o seu sorriso às outras pessoas.
      Esta época tão feliz faz as pessoas esquecerem-se dos seus problemas e juntarem-se com a sua família.
      Depois de um jantar delicioso e um momento em família, o dia acaba, como sempre, mas desta vez é diferente pois era véspera de Natal. Aconchegada pelas mantas fofinhas onde me enrolei, adormeci depois de um beijo de cada um dos meus pais. O que é estranho é que nessa noite sonhei com uma pequena história de Natal. Era assim…
      Uma pequena menina pobre vendia fósforos, obrigada pelo dono do orfanato onde ela vivia. Esta criança não tinha Natal, tinha de o passar assim, a vender fósforos.
     Sem sucesso, a menina esconde-se num canto e acende vários fósforos; com cada um deles,uma memória feliz de quando os seus pais eram vivos. Derrotada pelo frio, a menina morre nesse mesmo canto…
      De manhã acordei cheia de prendas à minha volta, mas antes de abrir uma, pensei na menina dos meus sonhos e saí à rua com um dos presentes. Encontrei uma menina também a vender fósforos e dei-lhe o meu presente para que ela pudesse ter uma coisa feliz no Natal…


Joana Chaves Ramos Cabrita Silva, 6ºD

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Eusébio da Silva Ferreira 
 1942- 2014



Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo-
só palavra
Abstração
ponto no espaço
teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo -
era poema

Manuel Alegre

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014


TEM DE SE SER VERDADEIRO NA ESCRITA

Tem de se ser verdadeiro na escrita, porque os leitores sentem. A mentira é impossível na boa literatura. E o que procuro, mais do que a beleza ou qualquer outra coisa, é a verdade, livro após livro, tentando desvendar um pouco mais de mim e esperando que essa possa ser uma forma de desvendar alguma coisa dos outros e que eles também se vejam refletidos nessa procura que faço.

José Luís Peixoto, in Diário de Notícias (2003)

Um 2014 cheio de novas e interessantes histórias: novos livros, novas leituras, novos textos.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013


CORTAR O TEMPO

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 21 de dezembro de 2013


Velho, velho, velho
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,

O chão onde passa
Parece um lençol.

Esqueceu as luvas
Perto do fogão:

Quando as procurou,
Roubara-as um cão.

Com medo do frio
Encosta-se a nós:

Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

Eugénio de Andrade (1923 –2005)  in Aquela nuvem e outras 


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013



Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

 Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo”. Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Polos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

 A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.


Fernando Pessoa