sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014




As sem razões do amor


Eu te amo porque te amo,
 Não precisas ser amante,
 e nem sempre sabes sê-lo.
 Eu te amo porque te amo.
 Amor é estado de graça
 e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
 é semeado no vento,
 na cachoeira, no eclipse.
 Amor foge a dicionários
 e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
 bastante ou demais a mim.
 Porque amor não se troca,
 não se conjuga nem se ama.
 Porque amor é amor a nada,
 feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
 e da morte vencedor,
 por mais que o matem (e matam)
 a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade, in o corpo

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

DEFINIÇÃO DE AVÓ/AVÔ


O que é para mim um avô 

 Um avô é um homem que está sempre no sofá a ver televisão, na RTP 1, e a seguir as notícias do país. Os avôs não têm nada para fazer e têm diabetes e colesterol.
 Estão sempre a falar muito alto e a dizer que querem o jantar na mesa. Quando acabam de comer começam a falar sobre política e a dizer que o Passos Coelho só anda a roubar os reformados e o país. Os avôs estão sempre mal dispostos porque o seu clube perdeu o jogo. Quando os netos vão lá a casa os avôs dão sempre cinco euros e perguntam se não querem comer alguma coisa. Eu acho que todos devíamos ter um avô.
  
Trabalho realizado por Tiago Sousa, nº27,  7ºF


Uma avó é uma mulher com mais de cinquenta anos. Adora ver o Ronaldo a jogar com os seus diamantes. Tem muitas coisas para fazer como: comida, lavar roupa, coser… A sua atividade preferida é o croché. As avós adoram mais os netos do que os próprios filhos. Não sei porquê.!... Também vão àqueles cabeleireiros XPTO para fazer uns penteados todos encaracolados e marados. São fantásticas a ajudar e a cuidar das pessoas, mas não sabem cuidar de si próprias. É só medicamentos para aqui e medicamentos para ali. Gastam dezenas de euros com osteopatas e dizem:
- Ai! As minhas costas!…
Se não fossem elas a cuidar de nós na nossa infância, dos dois aos três anos, ninguém cuidava. Muitas vezes, vamos a casa das nossas avós e recebemos aqueles beijos babados e ficam todas felizes a dizer: “-Ai o meu netinho, há quanto tempo não o via?!”
Nós temos de cuidar das avós e elas cuidar de nós. Na minha opinião, as avós são muito fixes e merecem a nossa ida a suas casas.

  Trabalho realizado por Rodrigo Afonso, 7ºF


Uma avó é uma senhora que já teve filhos e agora tem netos. Algumas pessoas pensam que os avós servem só para cuidar dos netos, mas não. Os avós são muitos úteis para a vida de todos. Nós não sabemos algumas coisas do passado enquanto eles sabem … quando se lembram.!... Também se pensa:” Ai! Os avós já são velhos, não servem para nada!” Isso é mentira. Não é só por causa de tomarem medicamentos que são fracos. Eles são fortes porque conseguiram ultrapassar várias etapas da sua vida. 

Trabalho realizado por Carolina Caleça, Nº6, 7ºF


  Isabel era uma rapariga inteligente, calma e simpática. Tinha cabelo vermelho e laranja como as estrelas-do-mar e a pele bronzeada como o sol. Os seus olhos eram verdes como as algas do mar e a sua boca era mais rosa que uma alforreca. Ela tinha um pequenino segredo fora de água, mas que no fundo se tornava vida. Era diferente de todas as outras raparigas. Pois nascera com uma cauda verde escura e escamosa como a dos peixes.
 Ela tinha também um tesouro muito importante para ela: a sua pérola de tritão.
Aquilo era o seu maior tesouro…
Um dia, Isabel saiu do seu navio afundado, a que ela chamava casa. Foi passear para as ilhas “Plota”. Levou com ela o seu colar para lhe dar um pouco de sorte.
De repente apareceram os seus amigos Tico e Pico, os golfinhos gémeos.
Apesar de serem tagarelas, Isabel brincava com eles na antiga fábrica abandonada, agora habitada pelo mar. Pulavam, brincavam e por fim descansavam até que o escuro aparecesse.
Foi assim todos os dias…


Ana Afonso, 5º A

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014


Balada Astral – Miguel Araújo (com Inês Viterbo)

  



Quando Deus pôs o mundo
 E o céu a girar
 Bem lá no fundo
 Sabia que por aquele andar
 Eu te havia de encontrar

Minha mãe, no segundo
 Em que aceitou dançar
 Foi na cantiga
 Dos astros a conspirar

Que do seu cósmico vagar
 Mandaram o teu pai
 Sorrir pra tua mãe
 Para que tu
 Existisses também

Era um dia bonito
 E na altura, eu também
 O infinito
 Ainda se lembrava bem
 Do seu cósmico refém

Eu que pensava
Que ia só comprar pão
Tu que pensavas
Que ias só passear o cão
A salvo da conspiração
Cruzámos caminhos,
Tropeçámos num olhar
 E o pão nesse dia
Ficou por comprar

Ensarilharam-se
As trelas dos cães,
Os astros, os signos,
Os desígnios e as constelações
As estrelas, os trilhos
E as tralhas dos dois.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014



COM FÚRIA E RAIVA


Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"




UNS A IMAGINAREM OS OUTROS

Deixo-te os números, esses são concretos: as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Na semana passada, li num jornal que as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Sei algumas coisas sobre ti. Estás aí, existes e respiras.

Há uns dois ou três anos, o diretor de uma revista portuguesa de informação generalista, contou-me que, em todos os inquéritos aos leitores, a maioria dos homens só tinha críticas negativas a fazer. Os elogios chegavam quase exclusivamente de leitoras.

O cálculo de probabilidades é uma forma discreta de mostrar que não se tem a certeza do que se está a dizer. Ainda assim, esta é uma revista e tu estás a lê-la, por isso, se fores um homem há a possibilidade de que estejas impaciente. Se ainda não desististe de ler, talvez te pareça que estou só a encher papel, que tenho pouco para dizer. Se fores uma mulher, é provável que estejas à espera de ver onde quero chegar, otimista. Mas as probabilidades são muito imperfeitas e tu, apesar delas, continuas a ser tu. É bem possível que sejas um homem e pertenças à minoria. Da mesma maneira, podes facilmente ser uma mulher e sentir a mesma necessidade de afirmação que a maioria dos homens nunca ultrapassa.

Ia agora desculpar-me e dizer que sempre embirrei com teorias à volta das diferenças entre homens e mulheres, o que seria verdadeiro, mas não o vou fazer porque me dá um certo alívio afirmar que a maior parte dos homens nunca ultrapassa uma necessidade de afirmação primária, mesquinha, patética. E irritante, como se nota pela adjetivação que escolhi. Se Freud aqui estivesse, diria que lhes faltou elogios. Um círculo, portanto.

Homem maioritário ou minoritário, mulher maioritária ou minoritária, uma grande parte daquilo que sei sobre ti nasce de mim próprio. Avalio-te por aquilo que me parece possível, parece-me possível aquilo que concebo, concebo aquilo que já fui ou considerei. Ao mesmo tempo, interpreto-te através do filtro da minha insegurança, do meu medo, da minha própria necessidade de afirmação. E acredito que contigo também é assim. Aquilo que sabes de mim nasce de ti, através dos teus filtros. De novo, um círculo.

Estas palavras são pretextos. De mim, estas palavras dizem-te que estou aqui, existo e respiro.

Com boa ou má vontade, tens razão nos dois casos. É certo que tenho pouco para dizer, mas também é certo que, se quiseres mesmo, podes tentar perceber onde quero chegar. Não sei se leste o mesmo jornal que eu, na semana passada, mas quero dizer-te, ou repetir-te, que as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Não se trata de um cálculo de probabilidades, são números concretos. Eu sou uma pessoa. Tu és uma pessoa. Uns são oitenta e cinco pessoas. Outros são três mil e quinhentos milhões de pessoas, mais ou menos. Como eu, já estiveste em lugares com oitenta e cinco pessoas, oitenta e quatro se contarmos contigo. Custa mais imaginar três mil e quinhentos milhões de pessoas.

O que sabemos dessas pessoas? Existem? Respiram? Onde estão? Será que podemos compará-las connosco? Será que podemos compará-las umas com as outras? Umas são piores do que as outras? São melhores? Umas merecem mais do que as outras? Merecem menos?

Tu e eu não pertencemos nem aos oitenta e cinco, nem aos três mil e quinhentos milhões. Convenientemente, essa verdade pode ilibar-nos de procurar resposta para estas perguntas. Já temos tanto com que nos preocupar. Uma das coisas que sabes de ti é que não podes resolver todos os problemas do mundo. Ou será que, abusivamente, te estou a imaginar a partir do que me parece possível, do que concebo, do que já fui ou considerei?

De novo, as dúvidas. É-me difícil evitá-las. Também há as probabilidades, mas já te disse aquilo que penso acerca delas. Deixo-te os números, esses são concretos: as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.

Li num jornal da semana passada. Ainda não se desatualizou. É deste tempo, deste mundo. Está a acontecer com tanta realidade como aqui, aí, como aquilo que iremos encontrar no momento em que deixarmos estas palavras e olharmos em volta.


José Luís Peixoto, Crónica publicada na VISÃO 1091, de 30 de janeiro


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014


HOJE É DIA INTERNACIONAL DA NÃO-VIOLÊNCIA

O dia 30 de janeiro foi proclamado pela ONU como o dia da não-violência em homenagem a Mohandas K. Gandhi cujo assassinato ocorreu nessa data, em 1948, na Índia.
Trata-se de uma iniciativa voltada à educação para a paz, a solidariedade e o respeito pelos direitos humanos.
Gandhi, também chamado Mahatma (que significa "grande alma", "alma iluminada"), nasceu na Índia, em 1869.
Mahatma Gandhi foi um dos maiores líderes pacifistas da história, levando multidões a conhecer e a praticar o significado da não-violência, na sua luta pela independência da Índia. Certa vez, o líder indiano comentou: “Posso até estar disposto a morrer por uma causa, mas nunca a matar por ela!”.
Quando, em certos momentos, a violência começou a se manifestar entre os indianos, Gandhi praticou o jejum, por duas vezes, colocando em risco a sua própria vida, com o objetivo de sensibilizar os  seus seguidores a não fazer uso da violência.
Gandhi, após estudar direito na Inglaterra, foi trabalhar na África do Sul como advogado. Lá começaram as suas primeiras ações de protesto não-violento contra o racismo, baseadas na resistência pacífica e na não cooperação com as autoridades.
Ao fim de anos de luta, e depois de ter conseguido algumas melhorias para a comunidade indiana na África do Sul, decidiu voltar ao seu país de origem - a Índia - e lutar pela sua independência. O país era uma colónia do Império Britânico. Graças aos seus esforços, a Índia conquistou a independência em 1947.
Os procedimentos e as formas de luta que Ghandi propôs e utilizou eram manifestações pacíficas, diálogos, testemunhos, petições, marchas, jejuns, greves de fome, orações e cooperação com os mais oprimidos.
Gandhi teve grande influência entre as comunidades religiosas hindus e muçulmanas da Índia.
Apesar de ter sido indicado cinco vezes entre 1937 e 1948, o pacifista que enfrentou o poder da Inglaterra nunca recebeu o prémio Nobel da Paz. Décadas depois, no entanto, o erro foi reconhecido pelo comité organizador do prémio.
Entretanto, trabalhar pela cultura da Não-Violência nas escolas é objetivo fundamental da ONU, visando que as crianças e adolescentes possam aprender a valorizar princípios como o respeito, a tolerância, o diálogo e a solidariedade. A cultura da Paz faz-se nas pequenas ações do dia a dia.

In Imprensa


BIBLIOTECA DA ESCOLA DA ESTAÇÃO



Os alunos da turma A do 1º ano foram à biblioteca da Escola da Estação para ouvirem ler a história Todos no Sofá, escrita por Luísa Ducla Soares e ilustrada por Pedro Leitão.
Numa leitura partilhada, aqui e ali, todos leram as palavras escritas com as letras que já tinham aprendido na sala de aula. A leitura em voz alta foi salpicada a várias vozes com palavras como: rato, pato, vaca, burro…
Ao ritmo das rimas foram contando até dez, tantos quanto os amigos sentados no sofá. Por fim, foi a vez de contarem por ordem decrescente, todos juntos!


As turmas do 4º ano participaram no projeto Grandes escritores, pequenos grandes leitores, que este mês abordou a obra de José Saramago. Após o visionamento de um ppt biográfico e depois de escutarem a leitura de um excerto do livro As Pequenas Memórias, os alunos de todas as turmas ficaram a compreender melhor a distinção entre: nome, apelido, alcunha e pseudónimo. Saramago
Em simultâneo, esteve patente uma breve exposição de algumas obras do autor, onde se incluíram livros para adultos traduzidos noutras línguas, representando a importância e o reconhecimento de Saramago no mundo.

 A turma B do 4º ano foi à biblioteca escolar, na passada semana, para responder aos desafios que José Saramago foi lançando na sua obra A Maior Flor do Mundo.
“Vou ou não vou?” foi a questão a que alguns tiveram de responder. Disseram aos colegas onde iriam e qual o objetivo dessa caminhada, passeio, viagem…
“… poderás contá-la de outra maneira…” diz Saramago aos leitores. A proposta de contar a história por outras palavras, introduzir outros elementos, personagens ou escolhendo outro final foi o que fizeram a Joana, a Madalena, a Margarida e a Ana Paula.
Por fim, todos foram dizendo algo que fariam e que fosse maior do que eles mesmos, desde proteger a Mãe Natureza; ajudar crianças com fome; cuidar dos idosos e doentes, até aos grandes jogos de futebol dos campeões do 4º B, tudo foi permitido. Afinal, os sonhos são sempre grandiosos.

domingo, 26 de janeiro de 2014



É fim de semana e os nossos meninos já têm algum tempo para enviar os seus textos. Desta vez, recebemos o texto da Maria Beatriz Carmo, do 9.ºD, que criou um belíssimo texto narrativo a partir da imagem da menina no lago. Toca de olhar lá para baixo, localizar a imagem e, sobretudo, o texto da Maria.

sábado, 25 de janeiro de 2014

E chegou à ”redação” um outro texto que nasceu da observação da imagem publicada um pouco mais abaixo (a menina junto ao lago…). Eu afirmei que haveria lugar a reflexões “filosóficas” e pensamentos mais profundos! Então desçam os olhos até à imagem e façam  o favor de ler o texto da Carolina André, do 9.ºD. ( Voando com a imaginação. Está aí em baixo…vá lá!)
A Rapariga que Roubava Livros

Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 9.º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada 
Grau de Dificuldade II

Agora podes ver o filme inspirado no livro.





Liesel Meminger é uma menina de nove anos que vive em Munique com a sua família adotiva, durante os difíceis anos da Segunda Grande Guerra. Ensinada a ler por Hans, o seu novo pai, ela entrega-se aos livros que rouba e que vai partilhando com os seus amigos e vizinhos. E é assim que nasce uma amizade profunda com Max, um jovem judeu que vive escondido na cave de sua casa e que, tal como ela, se refugia na literatura para escapar à dura realidade. Mas, um dia, ele é obrigado a partir, deixando Liesel mergulhada em desespero.

Narrado pela voz da morte, um filme dramático realizado por Brian Percival (conhecido pelo seu trabalho nas séries “Norte e Sul” e "Downton Abbey") que se baseia no livro homónimo do australiano Markus Zusak. Aclamado pelo público e pela crítica, o romance permaneceu 375 semanas na lista de "best-sellers" do "New York Times". No elenco surgem os atores Sophie Nélisse, Geoffrey Rush, Emily Watson e Nico Liersch, entre outros.

Críticas de imprensa

"Zusak não só cria uma história original e enfeitiçante, como escreve com poesia… Uma narrativa extraordinária."
School Library Journal

"Uma narrativa absorvente e marcante."
Washington Post

"Brilhante… É um daqueles livros que podem mudar a nossa vida…"
New York Times

"Inquietante, desafiante, triunfante e trágico… Um livro de grande fôlego, escrito de forma soberba… É impossível parar de o ler."
Guardian

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


VOANDO COM A IMAGINAÇÃO


Os alunos do 9ºD gostam muito de escrever. Que pena o programa de Português não permitir que estes jovens escrevam com mais frequência! Temos que cumprir as metas…as metas. Por vontade deles, passavam todas as aulas a escrever. Escrita criativa e lúdica. E eu adorava que isso fosse possível! A última proposta deu-lhes a oportunidade de darem asas à imaginação. A partir de uma imagem podiam escrever o que quisessem: descrever a imagem, encarnar o papel da jovem que surge nela, penetrar nos seus pensamentos, ser um mero narrador observador e criar uma história a partir da imagem… ou esta ser apenas um pretexto para reflexões de carácter mais “filosófico”. A Mariana Sousa já enviou o seu texto. Espero que os outros alunos  o façam também. É muito enriquecedor este momento de partilha. Ficamos a aguardar.



Eis a imagem a partir da qual os alunos redigiram os seus textos.

É uma vasta tristeza e solidão.
Sozinha e com frio, no entanto, preocupando-se com um bem menor do que a sua frágil estrutura.
O frio é tão psicológico como todos os problemas e questões existenciais da nossa passagem terrena.
Será que naquele ambiente negro, a sua mente encontrar-se-á no mesmo estado?
Será que a rapariga em questão só quer ficar à deriva?
Perguntar-se-á, olhando para toda aquela sensação de infinito proporcionada pela natureza, que a existência dela representa um grão de areia?
Suponho que seja uma questão de perspetiva; e é tão triste olhar para uma pessoa e apercebermo-nos que nunca a iremos conhecer, que tudo o que ela pensa ou realmente diz, não é dito.
Isso leva-me a afirmar que a existência é dolorosa e sofredora. “Sem dor não poderíamos reconhecer o prazer” disse John Green, mas não devia o sofrimento ser uma passagem ainda menor que a vida, um mero fôlego? Voltar ao caminho que é a felicidade e existir, realmente, é muito mais complexo do que se pensa. Existir é muito mais difícil do que nascer. “Como irei sair deste labirinto?” é só uma das muitas questões sofredoras a que nos proporcionamos, a dado ponto da nossa vida. Depressa e a direito, tinham-me dito. Mas a verdade é que está completamente errado. Perdoando. Seguindo. Sobrevivendo. Saindo de um canto do labirinto e vaguearmos; e aposto que foi isso mesmo que ela fez. Vagueou até ali ir parar.
A vida é a maldita “Grande Incógnita”. Não é a morte, nem o que vem depois, porque de facto é só morrer. Fechar os olhos. A morte não é eterna. A morte é morrer e depois virá outra maneira de estar; a “Grande Incógnita” é a iluminação e aprendermos que nada saberemos sobre nós, nem o que vem a seguir. A “Grande Incógnita” é saber não desvalorizar o passado, nem tornar o futuro expectante. É termos consciência que tudo tem de estar interligado para nós fazermos sentido.
Para sobreviver precisamos de procurar um sentido para tal e é isso que ela está a fazer. Está a refletir, sozinha, sem outras pessoas para a influenciarem na sua escolha.
Concluo que a reflexão é a base da existência. Por exemplo, as últimas palavras de Thomas Edison foram: “Ali é bonito”; sabemos que é bonito, mas será que chegámos ao ali?
Carolina A./ 9ºD

O lago das promessas

Quando era mais nova, a história que eu mais gostava de ouvir era o conto do “Lago dos Cisnes”.
Da imensidão de livros empilhados na prateleira do meu quarto, pedia sempre que me lessem essa mesma história, pois mais nenhuma me afastava os pesadelos e me fazia sonhar como se já não fosse acordar mais.
Esse livro já era da minha tia Elena, que, como não teve filhos, ofereceu-mo a mim. Essa é uma das razões por que gostava tanto dele. Alastrava-se um cheirinho a livro antigo sempre que a minha mãe abria a sua grossa capa para começar a lê-lo para mim e as suas esbeltas gravuras cheias de cor, fascinavam-me assim tanto como a bonita história de amor e harmonia.
Naquela altura tudo era mágico para mim. Vivia a sonhar com príncipes e princesas, reis e rainhas, cisnes e unicórnios.
Um dia, numa tarde de inverno, regressava eu a pé da escola de mochila às costas, quando avistei em frente ao pequeno quintal da minha casa um carro vermelho que me era familiar.
Era o carro da tia Elena!
- A madrinha está cá! – exclamei.
E corri o mais depressa que consegui, entre a neve amontoada que o nevão da noite passada havia deixado nas ruas da pequena aldeia.
Ao chegar a casa, corri assim que pude para os braços da minha tia que me esperava, junto dos meus pais, para um delicioso lanche em família.
A tia Elena era a pessoa de que eu mais gostava. Apesar de a ver apenas uma ou duas vezes por ano, ou às vezes nem isso, ela nunca se esquecia de mim: enviava postais quando ia viajar, telefonava quando podia, mandava um presente quando não podia estar presente no meu aniversário. Desde que me lembro as semanas com ela eram sempre as mais divertidas.
Mas desta vez, uma coisa foi diferente. A despedida.
Quando cheguei a casa naquela sexta-feira, as suas malas já estavam à porta. Despedir-me da minha tia sempre foi muito difícil, mas desta vez senti um nó que me apertada a garganta e mal conseguia falar.
Ela apareceu no corredor e pediu-me que não descalçasse as botas:
-Quero mostrar-te uma coisa antes de partir – disse ela.
Nisto pegou-me na mão e abriu a porta. Eu segui-a sem hesitar. Atravessámos a minha rua e dirigimo-nos para a direção oposta ao centro da pequena aldeia. Entrámos, então, num bosque para onde eu jamais estaria autorizada a ir sozinha. A neve começara a cair, vestindo as árvores de branco. Mas eu não sentia medo. Senti de imediato uma alegria, espanto. Um bosque, pensava eu. Aqui, tão perto de mim? Assim como o bosque do conto do “Lago dos Cisnes”! Andámos mais um pouco e, por fim, a tia Elena parou, mesmo em frente a um pequeno lago. Assim como o da história.
Olhei a minha tia, boquiaberta. Ela sorria como nunca a tinha visto sorrir. Como teria descoberto aquele lugar maravilhoso?
-Quando eu e o teu pai éramos mais novos, íamos brincar para um parque quando vínhamos da escola. Esse parque tinha um lago como este. – Disse, sem tirar os olhos do pequeno lago.
- Esse lago tinha cisnes? – perguntei.
- Não - disse, rindo um pouco – mas, sempre que lá ia, levava comigo a esperança de ver lá um. Lá, havia patos.
- Patos? – Espantei-me.
- Sim. Eu guardava um pouco da merenda que levava para a escola para os alimentar.
- E achas que aqui poderá haver patos ou cisnes? – perguntei.
- Humm! Acho que não, querida – disse, ajoelhando-se e olhando-me nos olhos – mas se algum dia vires um aqui, vais lembrar-te de mim, está bem?
- Está bem. – prometi.
Voltámos para casa em silêncio. Eu maravilhada com tudo o que acabara de ver e a minha tia com o ar triste comum, do dia da despedida. Eu bem sabia o porquê de ela ficar sempre assim. A tia Elena escolhera uma profissão arriscada: tornou-se hospedeira de bordo. Foi uma escolha contra a vontade do meu pai, mas era o desejo dela desde pequena. Por isso, mesmo a muito custo, apoiou-a na sua decisão. Mas eu não pensava nisso.
- Será o nosso pequeno segredo – disse, piscando-me o olho antes de chegarmos a casa.
Depois daquele dia, comecei a ir sempre àquele lugar. Nunca dissera a ninguém que ia lá todos os dias. Aquele lugar era meu e da tia Elena, não fazia sentido partilhá-lo com mais alguém. No entanto, passou o inverno, depois veio o verão e nem sinal de patos ou cisnes no lago. Nos dois anos seguintes, a tia não conseguiu vir visitar-nos. Acabei por desistir de lá ir. Desisti de acreditar, de guardar parte da minha merenda para os patos que esperava encontrar no lago, mas que, de facto, nunca apareceram.
Até que chegara um novo inverno e com ele uma notícia inesperada. Havia eu chegado a casa. A minha mãe abriu-me a porta com uma expressão que até então me era desconhecida, mas não fiz perguntas. Ajudou-me a tirar o casaco, o cachecol e as botas. Pegou-me na mão e levou-me até à sala. Ordenou que me sentasse e fez-me prometer que fosse forte. Acenei afirmativamente com a cabeça, sem perceber o que se estava a passar. Por fim, colocou-se de joelhos à minha frente, pegou nas minhas mãos e olhando-me nos olhos disse, gaguejando:
- A tua tia Elena…oh querida! Ela…ela partiu.
Petrifiquei naquele momento a tentar digerir aquela recente informação. Todas as memórias com ela passaram diante dos meus olhos. Eu não queria acreditar, eu não conseguia acreditar no que acabara de ouvir.
- Não! – gritei, levantando-me bruscamente. – Não pode ser! A tia Elena não!
- Ó minha querida, não sei o que te hei de dizer! – disse-me, levantando-se também.
As lágrimas começaram a escorrer-me do rosto e o mesmo aconteceu com a minha mãe. A tia Elena era como uma irmã para ela.
- O lago! – lembrei-me de repente. E nisto, corri para o corredor, calcei as botas, vesti o casaco, pus o cachecol em volta do pescoço.
- Mas onde vais tu? – perguntava a minha mãe.
- Tenho de me despedir da tia Elena – respondi, saindo de casa.
Limpei as lágrimas do rosto e fui o mais depressa que conseguia, correndo entre a neve amontoada no caminho. Tal como no dia da despedida começara a nevar. Estava quase a chegar ao lago quando de repente ouvi…
- Quaquá.
Parei assustada. O barulho parecia ter parado, mas depois ouvi:
- Quaquá, quaquá, quaquá.
Lá estava o barulho outra vez!
-Quaquá, quaquá.
Nem queria acreditar quando vi de onde vinha o barulho: do lago. Estavam patos no lago! Não dois, nem três. Eram pelo menos uma dúzia de patos que brincavam alegremente no pequeno laguinho.
Aproximei-me devagar para não os assustar e sentei-me junto do lago a contemplá-los.
- Tia Elena – disse olhando para o céu escuro que ameaça uma tempestade.
Retirei um pouco de pão seco que se encontrava no bolso do meu casaco e aqui estou eu, num dia frio de inverno, no meio de um bosque, junto ao lago agora habitado por um bando de patos que alimento, enquanto penso em quem já não volta.

Maria Beatriz Carmo, n.º 17, 9.ºD

Cristais que caem no meu rosto. Que gélido!
Um animal voador apega-se a mim. Precisará ele de aconchego? Que querido e mansinho que é! Volto no dia seguinte com comida. Tive pena do bichinho, pobrezinho! Dou-lhe um bocadinho ao seu biquinho e não é que vêm mais uns dez bichanos pôr-se à minha volta? Parecem pombos robustos! Mas eu já vi um pombo, e não são assim… talvez seja uma espécie desconhecida! Quem sabe?!...
Parecem tão felizes no seu laguinho! Queria voar! Bem. Não é bem o ato de voar. Queria… ser livre! Claro que nós, humanos, precisamos sempre de alguém que nos guie por um caminho. Já decidi! Quando for grande quero voar, mas voar sobre os meus pensamentos, voar sobre a ilusão.
Corro de imediato para casa a tentar mexer os braços o mais rápido possível. Não resulta! Deito-me e subitamente caio num sono mais profundo que o oceano e começo a voar. Sem asas, sem penas, só voo pelo mundo fora. Vou até às estrelas e regresso e nesse exato momento a minha mãe diz-me:
- Vem, filha, que o almoço está pronto!


Voo só pelo cheirinho.


Mariana Sousa, n.º 18, 9ºD