O lago das promessas
Quando era mais nova, a história que eu mais
gostava de ouvir era o conto do “Lago dos Cisnes”.
Da imensidão de livros empilhados na
prateleira do meu quarto, pedia sempre que me lessem essa mesma história, pois
mais nenhuma me afastava os pesadelos e me fazia sonhar como se já não fosse
acordar mais.
Esse livro já era da minha tia Elena, que,
como não teve filhos, ofereceu-mo a mim. Essa é uma das razões por que gostava
tanto dele. Alastrava-se um cheirinho a livro antigo sempre que a minha mãe
abria a sua grossa capa para começar a lê-lo para mim e as suas esbeltas
gravuras cheias de cor, fascinavam-me assim tanto como a bonita história de
amor e harmonia.
Naquela altura tudo era mágico para mim.
Vivia a sonhar com príncipes e princesas, reis e rainhas, cisnes e unicórnios.
Um dia, numa tarde de inverno, regressava eu
a pé da escola de mochila às costas, quando avistei em frente ao pequeno
quintal da minha casa um carro vermelho que me era familiar.
Era o carro da tia Elena!
- A madrinha está cá! – exclamei.
E corri o mais depressa que consegui, entre a
neve amontoada que o nevão da noite passada havia deixado nas ruas da pequena
aldeia.
Ao chegar a casa, corri assim que pude para
os braços da minha tia que me esperava, junto dos meus pais, para um delicioso
lanche em família.
A tia Elena era a pessoa de que eu mais
gostava. Apesar de a ver apenas uma ou duas vezes por ano, ou às vezes nem
isso, ela nunca se esquecia de mim: enviava postais quando ia viajar,
telefonava quando podia, mandava um presente quando não podia estar presente no
meu aniversário. Desde que me lembro as semanas com ela eram sempre as mais
divertidas.
Mas desta vez, uma coisa foi diferente. A
despedida.
Quando cheguei a casa naquela sexta-feira, as
suas malas já estavam à porta. Despedir-me da minha tia sempre foi muito
difícil, mas desta vez senti um nó que me apertada a garganta e mal conseguia
falar.
Ela apareceu no corredor e pediu-me que não
descalçasse as botas:
-Quero mostrar-te uma coisa antes de partir –
disse ela.
Nisto pegou-me na mão e abriu a porta. Eu
segui-a sem hesitar. Atravessámos a minha rua e dirigimo-nos para a direção
oposta ao centro da pequena aldeia. Entrámos, então, num bosque para onde eu
jamais estaria autorizada a ir sozinha. A neve começara a cair, vestindo as
árvores de branco. Mas eu não sentia medo. Senti de imediato uma alegria,
espanto. Um bosque, pensava eu. Aqui, tão perto de mim? Assim como o bosque do
conto do “Lago dos Cisnes”! Andámos mais um pouco e, por fim, a tia Elena
parou, mesmo em frente a um pequeno lago. Assim como o da história.
Olhei a minha tia, boquiaberta. Ela sorria
como nunca a tinha visto sorrir. Como teria descoberto aquele lugar
maravilhoso?
-Quando eu e o teu pai éramos mais novos,
íamos brincar para um parque quando vínhamos da escola. Esse parque tinha um
lago como este. – Disse, sem tirar os olhos do pequeno lago.
- Esse lago tinha cisnes? – perguntei.
- Não - disse, rindo um pouco – mas, sempre
que lá ia, levava comigo a esperança de ver lá um. Lá, havia patos.
- Patos? – Espantei-me.
- Sim. Eu guardava um pouco da merenda que
levava para a escola para os alimentar.
- E achas que aqui poderá haver patos ou
cisnes? – perguntei.
- Humm! Acho que não, querida – disse,
ajoelhando-se e olhando-me nos olhos – mas se algum dia vires um aqui, vais
lembrar-te de mim, está bem?
- Está bem. – prometi.
Voltámos para casa em silêncio. Eu
maravilhada com tudo o que acabara de ver e a minha tia com o ar triste comum,
do dia da despedida. Eu bem sabia o porquê de ela ficar sempre assim. A tia
Elena escolhera uma profissão arriscada: tornou-se hospedeira de bordo. Foi uma
escolha contra a vontade do meu pai, mas era o desejo dela desde pequena. Por
isso, mesmo a muito custo, apoiou-a na sua decisão. Mas eu não pensava nisso.
- Será o nosso pequeno segredo – disse,
piscando-me o olho antes de chegarmos a casa.
Depois daquele dia, comecei a ir sempre
àquele lugar. Nunca dissera a ninguém que ia lá todos os dias. Aquele lugar era
meu e da tia Elena, não fazia sentido partilhá-lo com mais alguém. No entanto,
passou o inverno, depois veio o verão e nem sinal de patos ou cisnes no lago. Nos
dois anos seguintes, a tia não conseguiu vir visitar-nos. Acabei por desistir
de lá ir. Desisti de acreditar, de guardar parte da minha merenda para os patos
que esperava encontrar no lago, mas que, de facto, nunca apareceram.
Até que chegara um novo inverno e com ele uma
notícia inesperada. Havia eu chegado a casa. A minha mãe abriu-me a porta com uma
expressão que até então me era desconhecida, mas não fiz perguntas. Ajudou-me a
tirar o casaco, o cachecol e as botas. Pegou-me na mão e levou-me até à sala.
Ordenou que me sentasse e fez-me prometer que fosse forte. Acenei
afirmativamente com a cabeça, sem perceber o que se estava a passar. Por fim,
colocou-se de joelhos à minha frente, pegou nas minhas mãos e olhando-me nos
olhos disse, gaguejando:
- A tua tia Elena…oh querida! Ela…ela partiu.
Petrifiquei naquele momento a tentar digerir
aquela recente informação. Todas as memórias com ela passaram diante dos meus
olhos. Eu não queria acreditar, eu não conseguia acreditar no que acabara de
ouvir.
- Não! – gritei, levantando-me bruscamente. –
Não pode ser! A tia Elena não!
- Ó minha querida, não sei o que te hei de
dizer! – disse-me, levantando-se também.
As lágrimas começaram a escorrer-me do rosto
e o mesmo aconteceu com a minha mãe. A tia Elena era como uma irmã para ela.
- O lago! – lembrei-me de repente. E nisto,
corri para o corredor, calcei as botas, vesti o casaco, pus o cachecol em volta
do pescoço.
- Mas onde vais tu? – perguntava a minha mãe.
- Tenho de me despedir da tia Elena –
respondi, saindo de casa.
Limpei as lágrimas do rosto e fui o mais
depressa que conseguia, correndo entre a neve amontoada no caminho. Tal como no
dia da despedida começara a nevar. Estava quase a chegar ao lago quando de
repente ouvi…
- Quaquá.
Parei assustada. O barulho parecia ter
parado, mas depois ouvi:
- Quaquá, quaquá, quaquá.
Lá estava o barulho outra vez!
-Quaquá, quaquá.
Nem queria acreditar quando vi de onde vinha
o barulho: do lago. Estavam patos no lago! Não dois, nem três. Eram pelo menos
uma dúzia de patos que brincavam alegremente no pequeno laguinho.
Aproximei-me devagar para não os assustar e
sentei-me junto do lago a contemplá-los.
- Tia Elena – disse olhando para o céu escuro
que ameaça uma tempestade.
Retirei um pouco de pão seco que se
encontrava no bolso do meu casaco e aqui estou eu, num dia frio de inverno, no
meio de um bosque, junto ao lago agora habitado por um bando de patos que
alimento, enquanto penso em quem já não volta.
Maria
Beatriz Carmo, n.º 17, 9.ºD