quinta-feira, 16 de janeiro de 2014


A CENSURA EXISTE EM TODO O LADO

Eu acho que a censura existiu sempre e provavelmente vai existir sempre. Porque a censura para o ser não necessita de ter claramente uma porta aberta com um letreiro, onde se diga que ali há pessoas que leem livros ou vão ver espetáculos. Não! A censura existe de todas as maneiras, porque todas as pessoas, nos diferentes níveis de intervenção em que se encontram, por boas ou más razões, selecionam, escolhem, apagam, fazem sobressair. E isso são atos de ocultação ou de evidenciação que, no fundo, em alguns casos, são atos formais de censura.
(Quanto à censura oficial dos tempos de ditadura) Aquilo que a censura demonstrou e demonstra, em qualquer caso, é que felizmente os escritores, dependendo das situações em que se encontram, são muito mais ricos de meios, de processos de fazer chegar aquilo que querem dizer aos outros, do que se imagina. Evidentemente, numa situação de censura, o escritor é obrigado a usar a escrita para comunicar isto ou aquilo ou aqueloutro, de uma maneira disfarçada, subterrânea, oculta; mas o que é importante não é que a censura o esteja a obrigar a fazer isso. O que é importante é que ele seja capaz de o fazer. E isso não vai em abono da censura como agente capaz de estimular a criatividade de um escritor, vai, sim, no sentido de reconhecer no escritor capacidades de expressão que ele usará ou não consoante a situação concreta em que se encontre. Agora, se me pergunta: a escrita sai melhor de uma maneira ou sai de outra, eu diria que provavelmente alguns dos livros que escrevi numa situação de liberdade de expressão, provavelmente num regime de censura eu não pensaria em escrevê-los.


José Saramago, in "Diálogos com José Saramago" 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

NOVIDADES EDITORIAIS


JERUSALÉM- Gonçalo M. Tavares


Theodor, um reputado médico, tem como grande objetivo de vida encontrar uma teoria que explique a história e futuro da maldade gratuita que repetidamente se encontra nos grandes massacres de povos sem defesa, cujo exemplo mais recente é o Holocausto. Que se consiga reduzir a um conjunto de fórmulas que permita deduzir o futuro da humanidade. Estas poderão traduzir um ciclo que simplesmente se repetirá sem fim, ou que aumentará ou diminuirá gradualmente ao longo dos séculos, mas, em qualquer dos três casos, o cenário resultante será apocalíptico. Na sua vida pessoal, Theodor leva ao extremo a sua tentativa de tudo explicar, ao casar com uma mulher desequilibrada mentalmente, Mylia.
Gomperz, diretor do manicómio, é um redutor de faculdades mentais. Tudo simplifica, dentro dos hábitos dos seus doentes e dentro das suas cabeças, até julgar que se comportam de forma correta e pensam de forma correta. E convence-se que o seu método resulta, iludido pelo comportamento dos seus doentes e pela reputação que granjeia na comunidade.



O Caderno Vermelho da rapariga Karateca
  Ana Pessoa



N não é uma menina, é karateca.
N tem 14 anos, quase 15, e o seu maior sonho é ser cinturão negro e beijar o Raul.
N gosta de escrever, mas prefere lutar com o Raul.
(Escrever é uma seca.)
Isto não é um diário. Não tem chave, não tem segredos.
(Sim, tem segredos.) Também tem vontade própria, páginas movediças, palavras como «diarreia» e «romântico» e personagens como a bruxa má que quer aprender a ser boa e a mosca que não sabia quem era.
Isto é o Caderno Vermelho da Rapariga Karateca. O objeto preferido de N, um animal de estimação, uma personagem, uma pessoa de verdade.
(O que é a verdade?)
O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca é a primeira obra de Ana Pessoa e venceu a última edição do prémio Branquinho da Fonseca — Expresso/Gulbenkian, na modalidade Juvenil. Com este título, o Planeta Tangerina inaugura a coleção para leitores mais crescidos Dois Passos e Um Salto.

Aconselhado pelo Plano Nacional de Leitura


O Senhor Valéry e a lógica
Gonçalo M. Tavares




O senhor Valéry é um conjunto de vinte e cinco micro-histórias protagonizadas por um senhor franzino e de pequena estatura que não gosta de ser posto em causa e é, no fundo, um solitário [...]

Lemos este livro recordando Lewis Carroll e com a permanente impressão de estarmos a ser interpelados na nossa lógica de seres, por assim dizer, normais [...]

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014




CONCURSO NACIONAL DE LEITURA DE 2014

8.ª EDIÇÃO – 1.ª FASE

Só para vos lembrar…e toca a participar!

Como já é do teu conhecimento, a 1.ª fase do “Concurso Nacional de Leitura” é  no dia 15 de janeiro, pelas 14.30, na sala EV1.
Nesta fase serão selecionados os três alunos que obtenham melhor classificação e, posteriormente, representarão a escola, a nível distrital.
Os livros que tens de ler são:
  • PARABÉNS, RITA, de Maria Teresa Maia Gonzalez
  • OS DA MINHA RUA, de Ondjaki
Estes livros existem na biblioteca. Ainda podes inscrever-te, junto da tua professora de Português ou na biblioteca, requisitá-los e lê-los!
Participa!!!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014



A ARTE DE SER FELIZ

 Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.

Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

NOVIDADES EDITORIAIS


Livro inédito de Rosa Lobato de Faria, O Balão Azul é o primeiro livro da coleção Biblioteca Infantil Rosa Lobato de Faria que a ASA dedicará à autora. Neste livro, o Martim e a Francisca encontram um balão muito especial, de cor azul, que os leva a conhecer uma casa não menos especial: a casa das fadas! Aí, ambos se divertem e se maravilham com aquele mundo tão diferente, até que, ao regressarem a casa, caem nas mãos do malvado Bruxo Coquinhas, que os aprisiona e os pretende comer ao jantar. Conseguirão os nossos heróis escapar a este terrível fim? 


O SONO

O sono é uma viagem noturna.
O corpo – horizontal – no escuro
E no silêncio do trem avança.
Impercetivelmente
Avança. Apenas
O relógio picota a passagem do trem.
Sonha a alma deitada em seu ataúde:
Lá longe
Lá fora
(Ela sabe!)
Lá no fundo do túnel
Há uma estação de chegada
- anunciam-na os galos, agora –
Com a sua tabuleta ainda toda húmida de orvalho,
Há uma estação chamada
AURORA.

 Mário Quintana in: Preparativos de Via

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

 UM FINAL FELIZ
   Tudo começa numa véspera de Natal fria, comigo enrolada numa manta, bem como a minha família. Todos estávamos bastante entusiasmados com esta época tão feliz.
      A casa estava enfeitada de cima a baixo, cheia de fitas e decoração maravilhosas, tal como a árvore que estava mais bela que nunca, enfeitada por toda a família. A estrada e os telhados das casas estavam cobertos de neve. Lá fora, na rua, as pessoas cantavam sorridentes de porta em porta, transmitindo o seu sorriso às outras pessoas.
      Esta época tão feliz faz as pessoas esquecerem-se dos seus problemas e juntarem-se com a sua família.
      Depois de um jantar delicioso e um momento em família, o dia acaba, como sempre, mas desta vez é diferente pois era véspera de Natal. Aconchegada pelas mantas fofinhas onde me enrolei, adormeci depois de um beijo de cada um dos meus pais. O que é estranho é que nessa noite sonhei com uma pequena história de Natal. Era assim…
      Uma pequena menina pobre vendia fósforos, obrigada pelo dono do orfanato onde ela vivia. Esta criança não tinha Natal, tinha de o passar assim, a vender fósforos.
     Sem sucesso, a menina esconde-se num canto e acende vários fósforos; com cada um deles,uma memória feliz de quando os seus pais eram vivos. Derrotada pelo frio, a menina morre nesse mesmo canto…
      De manhã acordei cheia de prendas à minha volta, mas antes de abrir uma, pensei na menina dos meus sonhos e saí à rua com um dos presentes. Encontrei uma menina também a vender fósforos e dei-lhe o meu presente para que ela pudesse ter uma coisa feliz no Natal…


Joana Chaves Ramos Cabrita Silva, 6ºD

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Eusébio da Silva Ferreira 
 1942- 2014



Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo-
só palavra
Abstração
ponto no espaço
teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo -
era poema

Manuel Alegre

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014


TEM DE SE SER VERDADEIRO NA ESCRITA

Tem de se ser verdadeiro na escrita, porque os leitores sentem. A mentira é impossível na boa literatura. E o que procuro, mais do que a beleza ou qualquer outra coisa, é a verdade, livro após livro, tentando desvendar um pouco mais de mim e esperando que essa possa ser uma forma de desvendar alguma coisa dos outros e que eles também se vejam refletidos nessa procura que faço.

José Luís Peixoto, in Diário de Notícias (2003)

Um 2014 cheio de novas e interessantes histórias: novos livros, novas leituras, novos textos.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013


CORTAR O TEMPO

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 21 de dezembro de 2013


Velho, velho, velho
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,

O chão onde passa
Parece um lençol.

Esqueceu as luvas
Perto do fogão:

Quando as procurou,
Roubara-as um cão.

Com medo do frio
Encosta-se a nós:

Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

Eugénio de Andrade (1923 –2005)  in Aquela nuvem e outras 


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013



Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

 Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo”. Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Polos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

 A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.


Fernando Pessoa

Na passada semana, os alunos das turmas A e B do 1º ano, da Escola da Estação, foram à biblioteca para ouvir contar a história Avós, de Chema Heras e Rosa Osuna. Depois de soletrarem o título, como quem dança em passo lento, seguiram ao ritmo das palavras e, por fim, apressaram-se para “ir bailar”.


A turma B do 4º ano esteve na biblioteca da Escola da Estação para ouvir a história Laura e o coração das coisas, de Lorenzo Silva e Jordi Sabat, editada pela D. Quixote. Com a Laura aprenderam a olhar as coisas que nos rodeiam em casa, na escola, nas ruas, as que temos, as que queremos, aquelas de que quase nos esquecemos, como objetos que devem ser valorizados e respeitados. Nesta época natalícia há sempre alguém que pode escutar o coração dos livros, dos jogos, das bonecas e bonecos que já não têm vida nas prateleiras e armários lá de casa. Uma história que nos convida a usufruir do que temos e a partilhar com aqueles que mais precisam.

Foi proposta uma atividade de escrita aos alunos do 9ºC e D. Após terem ouvido uma notícia sobre um sem-abrigo que foi apanhado a roubar chocolates no valor de 14 euros e 34 cêntimos e uma idosa que tentou roubar um creme de beleza no valor de 3 euros e 99 cêntimos e tendo sido vítimas de uma justiça demasiado pesada que envolve custos avultados ao estado, que desafio foi lançado? Teriam de assumir o papel de um dos arguidos da notícia que tinham ouvido e redigir uma carta dirigida ao juiz encarregue do processo a pedir a absolvição da sua pena, apresentando, para isso, argumentos convincentes. Eis a carta da Maria Beatriz Carmo.



Manuela da Silva Monteiro
Rua Tomás Almeida lote 3, 2.º andar    Tribunal de S.Pedro, Lisboa, 21/11/2013

Assunto: Pedido de Absolvição

Exmo. Senhor Juiz do Tribunal de Lisboa

 Na passada quinta-feira, fui apanhada a roubar um creme antirrugas no Lidl cá da cidade.
Sei que roubar é um ato condenável, mas na altura não sei bem o que me passou pela cabeça.
Toda a minha vida gostei de cuidar de mim mesma, mas nasci numa família com fracas condições económicas. Então nunca pude demonstrar os meus dotes com a estética.
Consegui um emprego num cabeleireiro, sendo pouco depois despedida. Fiquei a viver à base do que o banco alimentar me fornecia e os meus dias eram passados na fila da segurança social. A crise veio a agravar toda a situação e agora só resta esta pequena e pobre velhota de setenta e três anos, sem filhos ou netos que a possam sustentar.
Não me consigo lembrar da razão de ter ido àquele supermercado. Eu, que não tenho poder de compra, que não tenho senão uns meros trocos na minha carteira. Talvez quisesse relembrar todo aquele ambiente agitado de pessoas a entrarem e a saírem, do barulho repetitivo das máquinas e dos carrinhos que desfilam pelos corredores estreitos dos expositores.
Avancei para a zona dos cosméticos e regalei os meus olhos naquela beleza. Como eu desejava levar todos aqueles produtos para casa!... Infelizmente, eu sabia que aquilo não seria possível e, talvez por isso, eu tenha pegado naquele antirrugas e ao recontar as moedas que estavam na minha carteira e que não chegavam para o pagar, o tenha enrolado no meu casaco e tentado fugir com ele.
Era impossível ter resistido. Provavelmente iria ficar de consciência pesada e devolvê-lo depois de o experimentar, porque eu não sou uma ladra e jamais permitirei que alguém me trate como tal.
Eu nunca na vida roubei nada a ninguém e o furto que cometi não tem razão nenhuma de ir a tribunal. Afinal, era só um creme barato de marca branca e as despesas que o estado irá ter não compensariam, pois acabei por devolver o creme sem sequer chegar a utilizá-lo.
Penso que, em vez de perdermos tempo a discutir o caso de uma idosa que teve uma recaída e roubou um antirrugas do mais barato que há, o senhor juiz poderia estar a ocupar-se em tentar prender verdadeiros criminosos que andam por aí à solta.
Sei que cometi um crime e devo ser punida por tal ato. Então deixo-lhe o pedido de pensar na possibilidade de me colocar a prestar serviços comunitários.

Na expectativa de uma resposta favorável ao meu pedido, subscrevo-me, com os melhores cumprimentos.                                                                                                                               
                                                                                                        Manuela Monteiro

Maria Beatriz Carmo, 9ºD

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013




Na BE da Escola da Estação houve conversas à volta dos Direitos Humanos

Os alunos da turma B do 4º ano vieram à biblioteca da Escola da Estação para visualizarem um powerpoint alusivo à comemoração do Dia Mundial da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que se comemora no dia 10 de dezembro.
Após a leitura de alguns princípios e da observação das imagens que ilustravam o texto, os alunos conversaram acerca dos Direitos Humanos consagrados na Declaração e estabeleceram as diferenças entre a teoria e a realidade:
            O que significa nascer livre?
Todos podemos expressar livremente as nossas opiniões?
Atualmente, ninguém é mantido em escravatura?
Todas as pessoas têm condições para alimentar a sua família?
Todas as pessoas têm direito à educação. Que diferenças haverá entre estudar em países como Portugal, Brasil ou Etiópia?

A conversa desenrolou-se em torno destas questões e todos expressaram as suas opiniões livremente. Por último, como também está consagrado que cada indivíduo tem deveres para com a comunidade, todos levaram consigo uma questão:
O que posso eu fazer para que os Direitos Humanos sejam comemorados todos os dias?